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REPEGANDO O FIO DE ARIADNE... À CONVERSA COM QUATRO CIENTISTAS E SUAS VIAGENS.
por Gabriela Tristão Ferreira e Maria Inês Bolinhas


APÊNDICES:

APÊNDICE 3 – ENTREVISTA A PEDRO SALGADO

TRANSCRIÇÃO LITERAL DA ENTREVISTA REALIZADA A PEDRO SALGADO - BIÓLOGO E  ILUSTRADOR CIENTÍFICO (PARTICIPOU EM EXPEDIÇÃO À AMAZÓNIA)

2003.04.03

– No nosso seminário de Mestrado em Filosofia «Cosmologia e Ambiente» propuseram-nos que entrevistássemos cientistas que tivessem feito expedições. Sabemos que no seu currriculum constam viagens dedicadas à pesquisa e à investigação. Assim, em primeiro lugar, gostaríamos de saber o que entende pelo conceito de «expedição científica»?

PS – A palavra expedição é muito pomposa. O que actualmente fazemos são saídas de campo. Vamos uma manhã para o campo, um dia... Há saídas que podem demorar uns dias, mas já não faço disso. O que fazia,  quando ainda estava na Faculdade, era, um pouco como Alexandre Rodrigues Ferreira quando chegou a um mundo novo, recolher informação para depois a trazer para cá - uma vez que não se pode trazer para cá a Amazónia. Estou a pensar nas saídas que fiz, antes de me dedicar à ilustração, no âmbito da investigação da Biologia. Fiz colheitas em que estava programado apanhar as coisas no campo: tiravam-se as notas, rentabilizava-se o tempo ao máximo e durante algumas horas, ou alguns dias, colhia-se esse material que depois era visto no laboratório, com calma. Isso é aquilo que eu, praticamente, deixei de fazer. Aquilo que eu fiz, que pode estar um bocadinho enquadrado dentro do que é uma expedição científica, e sobre o que eu esperava conversar com vocês hoje, era a tal história da expedição à Amazónia. Continuam-se a fazer – exclusivamente por cientistas – expedições para encontrar espécies novas (de insectos, etc.).

– E como «arrumaria» outros conceitos ligadas ao trabalho de campo do cientista, como os de comissão, missão e projecto?...

PS – Não sei se conseguirei explicar-vos isso, porque essas fronteiras são tão ténues como as questões da linguagem. Tem tudo a ver com os objectivos que se estão a trabalhar. Tenho a impressão de que, em Portugal e no Brasil, apesar de falarmos a mesma língua, não designamos os objectivos da mesma forma; daí as questões linguísticas. Mas também vemos que, muitas vezes, existem departamentos de museus que têm equipas pluridisciplinares (uns mais virados para a Botânica outros mais para a Biologia) que têm os seus métodos de recolha, que são universais, na medida em que existem livros de texto, publicações, papers, congressos, etc., que normalizam todo esse tipo de trabalhar no campo. É isso que possibilita a existência de critérios para que os dados sejam comparáveis entra vários pontos. Num número X de dias fazem as suas colheitas, as suas observações, as suas notas e aquilo que se fazia antes – o desenho –, é claro que se faz muito menos hoje em dia.

– E tenderá o desenho a desaparecer no contexto da produção científica?

PS – Penso que não. Acaba por ser uma coisa romântica... Continua a haver uma série de pequenas expedições para recolher imagens e não têm, necessariamente que ter um objectivo exclusivamente científico.  Estão ligadas à divulgação científica. As associações de ilustradores científicos e de desenhadores e pintores da Natureza, vão sempre para o campo para trabalhar.

– Foi nessa situação que foi para a Amazónia?

PS – A expedição que fiz à Amazónia era uma expedição de vinte pessoas, quase todas americanas... e estava eu, português, um brasileiro e um mexicano. A grande maioria eram cientistas,  uma boa parte com um desenvolvimento paralelo artístico; nomeadamente na fotografia, que é muito comum. Repare numa coisa: os biólogos são pessoas que naturalmente tem uma grande capacidade de observação e um grande interesse pelo pormenor das coisinhas pequeninas, de uma maneira muito intensa. O desenho, no fundo, acaba por ser uma necessidade de quem quer observar melhor.

– E isso fá-lo preferir o desenho à fotografia?

PS – Eu desenho para ver melhor coisas que, para a maioria das pessoas, se veriam através de uma fotografia; mas que não entendem que quem desenha vê muito mais longe do que quem fotografa. Eu, ao olhar para este jardim... gasto dois ou três rolos de fotografia, estou aqui uma meia horinha, levo as imagens para casa todo contente e já tenho tudo o que é preciso. Mas eu passo aqui um dia a desenhar várias vistas do que cá está, meia dúzia de plantas mais em particular e não levo no bolso esse material. Levo-o na memória... E apenas o desenho que permite isso! Essa é a mais valia do desenho em relação à fotografia. Nessa expedição à Amazónia, o que realmente havia de comum era haver uma bivalência de interesses na área científica e também na área artística: alguns mais ligados ao desenho ou  fotografia,  aos filmes e um gosto particular pelos peixes.

– Como é que caracterizaria o trabalho da equipa onde se integrou na Amazónia?

PS – Não lhe chamaria um expedição científica, mas uma expedição lúdico-científica.

– A seu ver, o que motiva o cientista é o apelo lúdico da própria Ciência?

– É fundamental. É a mesma diferença entre quem passa e vê um bicharoco (ou até se afasta porque o bicho está ali!) ou quem olha para aqueles desenhos de bicharocos que vos mostrei ali, em que dentro de cada desenho, com menos de um palmo, existe um mundo enorme e incrível, que só está visível para dois tipos de pessoas: os que pintam ou os que desenham (que olham profundamente) e os que o estudam do ponto de vista científico (em termos macro métricos, de isomorfismo sexual, etc.). A visão dessas duas pessoas, teoricamente com  formação tão distinta, acaba por arranjar montes de pontos em comum.

– O desenho, ligado a esse gosto pela observação, trouxe algo de diferente da expedição lúdico-científica à Amazónia?

– Sim! Descobrimos quatro espécies novas de peixes para a Ciência! Não foi brincadeira. Quatro espécies novas de peixes, em Portugal, não se encontram há décadas! Mas na Amazónia, como há de tudo e há tão pouca gente a estudar, isso é possível.

- Porquê lúdico?

PS – Lúdico  porque toda a gente adora e desfruta do que está a fazer ali; o que é maravilhoso, porque todas as pessoas estão alertadas para a questão biológica e ambiental do que lá vive.

– Talvez não fosse lúdico para o cidadão comum...

PS – Sem dúvida! Grande parte das pessoas que conheço por aí, teriam passado um mau bocado: quinze dias na selva Amazónica, sempre no barco, a sair e entrar da canoa, a ver bicheza e plantas... Sem esse olho clínico não teria interesse nenhum! Eu tirei mais de seiscentas fotografias (além dos slides) e ao mesmo tempo desenvolvi um caderno de campo onde ao mesmo tempo ia registando o que me suscitava interesse.

– Tinha algum objectivo quando o fez?

PS - Aquilo que eu registei terá uma aproximação científica, mas não tinha um objectivo de publicar depois um desenho científico de descrição de uma espécie, do princípio até ao fim.  O objectivo principal era recolher informação. Essa informação, tão variada e que se dava de forma  algo desordenada –  porque se não fosse lúdico-científica e fosse apenas científica,  seria muito ordenada no tempo e na sequência; como era lúdico-científica, procedia quase por ímpetos: «agora não vou com vocês porque descobri este bicho, que está aqui,  e vou ficar as próximas três horas, portanto, não me chateiem!»

– Três horas passadas, portanto, sem qualquer sacrifício! Verdadeiramente lúdicas!

PS – Sim. Lúdicas porque, ao desenhar, estava divertidíssimo e não estava, de maneira nenhuma, divorciado do prisma científico. A curiosidade científica estava ali de forma iminente. Obviamente, que havia a posteriori um tratamento do material recolhido, de uma forma despreocupada – daí o lúdico . Mas desse material também se extraíram depois alguns papers de carácter científico puro, artigos, desenhos e fotografias que saíram para o público geral.

– Preocupa-se com esse tipo de divulgação?

PS – Sim. Existem muitos cientistas que só trabalham para a comunidade científica. Eu já fiz isso. Depois outros há que, para além de fazerem isso, se podem dedicar a produzir material para a chamada educação ambiental ou divulgação científica. São perspectivas diferentes: a Ciência séria para a comunidade científica, hermética, a preto e branco, quase telegráfica– muito formal – e o traduzir essa informação de uma forma prática, colorida, educativa para o público geral – informal.

– Acredita no papel social do cientista?

PS – Acredito que a Ciência, não vai a lado nenhum se não se preocupar em transmitir à comunidade o que sabe. E é aí que têm falhado redondamente. Sabem fazer Ciência, mas não sabem comunicar. Mesmo ao nível universitário, um bom cientista não é necessariamente um bom comunicador e um bom professor tem que ser um bom comunicador... e um bom professor tem que ser um bom cientista e um bom comunicador. Acho que a Ciência se torna demasiado estanque e até algo inconsequente se não se preocupar em canalizar informação para chegar a toda a população. Porque se a população estiver, como está hoje ou como tem estado – cada vez menos, talvez –, mas muito lentamente divorciada dos processos científicos olha para a Ciência como algo que lhe está demasiado longínquo e que não lhe diz nada.

– É aqui que se joga, então, um novo caminho para a Ciência?

PS – É por aí. As coisas não podem seguir da mesma maneira. Há muitas áreas que não me dizem nada devido à forma obscura como a informação me foi legada. A Biologia, em particular, tem todas as potencialidades para chegar a toda a gente. É o caso da Paleontologia que, por outras vias chegou a todo o lado. Toda a gente sabe o que eram os grandes dinossaurios, nem que seja pelas colecções de bonequinhos do McDonalds – embora não seja necessário chegar a esse extremo! Há outra formas de lá chegar. O objectivo é uma coisa fundamental porque, com o mesmo modelo, com o mesmo tema de interesse, vou reformular radicalmente essa informação consoante o meu objectivo seja a comunidade científica, a comunidade em geral, ou sejam determinados tipos de grupos etários ou sociológicos. Para cada uma dessas situações, o mesmo material de base pode e deve ser moldado nesse sentido.

– Na sua perspectiva, portanto, vemos que o cientista deve ter essa função social de divulgador. E quanto à neutralidade ética do cientista?

PS – Eu não sei, assim à partida , quais são as obrigações do cientista. Eu acho  que a primeira coisa que o cientista deve ser é rigoroso e honesto no trabalho que faz. E o trabalho que o cientista faz é completamente inconsequente se não houver uma consciência profunda da comunicação, senão o cientista é virado para dentro. É perfeitamente possível um cientista estar a trabalhar praticamente para si só e não guardar dados; não produzir nada.

– E mesmo aí, ele deverá ter consciência da dimensão moral daquilo faz? Alguma  preocupação em relação aos riscos que daí advêm?

PS – Se calhar não compete ao cientista tomar esse tipo de decisões éticas. Não sei... Depende muitíssimo das áreas em que se trabalha. Quando estamos a falar dos clones, da física nuclear, etc., penso que não é o próprio cientista que deve tomar essas decisões mas, em função dos dados, terão que haver comissões éticas, compostas por cientistas e não-cientistas, que tenham um nível de visão diferente daquela de quem está a investigar o fenómeno natural em si.

– Não há, portanto, uma visão global por parte daqueles que investigam o fenómeno natural em si?

PS – Por vezes até das implicações sociais; porque quando o cientista que está focado numa questão não se apercebe, no momento, das implicações que isso pode ter. Frequentemente, a concentração da atenção no objecto de estudo não deixa espaço de consciência para que o cientista não se aperceba de certo tipo de consequências, pormenores potenciadores de problemas...

– Será que a distinção entre Ciência pura a Ciência aplicada pode aqui dar uma ajuda?

PS – Podemos fazer essa velha distinção entre Ciência pura e Ciência aplicada, mas esse tipo de distinção é extraordinariamente efémera, porque toda a Ciência aplicada já foi Ciência pura em dada altura. Provavelmente os tecnocratas não vêem com bons olhos nem entendem qual é a lógica da Ciência pura. Com que sentido é que nós estamos a gastar milhares de contos num navio que está a fazer dragagens a dois ou três mil metros de profundidade para ir buscar organismos que ninguém conhece e não se sabe para que servirão? À partida, não faz muito sentido... Mas é necessário descrever os organismos, como é que eles são, novos  grupos, novas espécies, entre outras coisas, e é altamente provável que nesse tipo de ambientes pouco conhecidos - como no coração da Amazónia – se encontrem novas espécies. O que é muito bom para a Ciência, porque ela tem como primeira missão conhecer o desconhecido o que permitirá descobrir pistas para resolver, por exemplo, o problema do cancro, ou outros problemas, e muitas vezes isso acontece a partir de coisas que à partida não se imaginava poderem servir para isso.

– O Professor João Mata, quando entrevistado, acerca da incompreensão dos tecnocratas em investir na Ciência pura, dizia que «a América investe brutalmente na Ciência pura» mas que, devido à compartimentação da Ciência, «cada cientista sabe cada vez mais sobre nada», trabalhando numa área cada vez mais reduzida. Ele dizia, em tom de brincadeira, que possivelmente estaria aí o papel dos filósofos porque, de fora, teriam uma visão global.

PS – Onde cabe essa questão social! Exactamente! O cientista não pode nem consegue estar focado nestas questões particulares, alguns terão essa visão mais global; e essa visão terá que resultar de apreciações interdisciplinares ou pluridisciplinares, terão que ser uma visão mais global das potenciais consequências dos novos conhecimentos que aparecem todos os dias.

– O Dr. João Mata acha que é um privilegiado por ser Português, porque pensa que os Portugueses, apesar de tudo, sabem mais sobre a Geologia em geral do que, por exemplo, um colega Americano ou da Europa desenvolvida, de formação mais especializada. Como biólogo português, pensa da mesma maneira?

PS – Sim. Eu estudei com os americanos. Saí de cá licenciado e fui estudar dois anos de investigação científica. Sei que um licenciado em biologia em Portugal chega lá, à equivalência que lhe dão antes de começar o mestrado e doutoramento, e sabe muito mais do que eles sabem em Biologia. Temos um horizonte mais amplo, mais horas de estudo e mais conhecimento de várias coisas, sem dúvida nenhuma! Mas depois é um salto brutal quando entram na fase de pós-graduação. Por isso é que vale a pena ir lá fazer os doutoramentos. Têm uma Filosofia diferente em termos de estudos universitários. Nós temos uma escola universitária que descende da escola francesa e eles descendem da escola inglesa (anglo-saxónica) – com a qual até concordo mais do que com a  nossa francesa! Cerca de 20% ou 25% das disciplinas correspondem ao minor; nessas disciplinas têm a possibilidade de estudar artes, artes de palco, literatura, etc. Há depois têm o major, onde se dá a formação principal. Por cá os estudantes formam-se em Biologia, mas não percebem muito de Filosofia ou Literatura, mais do que ao que apanhou até ao liceu. Contrariamente, os americanos têm a oportunidade de durante o percurso universitário até à licenciatura guardarem parte do seu esforço, em termos de disciplinas, para terem um major na área que querem seguir e terem a possibilidade de estudar outros assuntos no minor. Depois desse período, entram a  sério. Na minha área profissional actual eu tenho conhecido centenas de profissionais americanos, e é curioso constatar que o percurso profissional dessa gente acabou por acontecer, devido a esse sistema. Foram pessoas com um major em biologia e usaram o minor para fazer artes, ou usaram o major para fazer artes e os minor para fazer biologia. Logo desde a universidade tiveram uma formação complementar. Ao passo que no meu caso eu fiz Biologia e a parte de artes foi praticamente autodidacta: inscrevi-me ali e acolá, quando pude, depois então comecei, já passados não sei quantos anos. Ora, pode-se criar uma ponte entre duas grandes áreas, a Biologia e a Ilustração. A isso é que eu acho graça. Tenho uma certa fobia no excesso de especialização.

– Estará aqui, portanto, a grande falha na cultura geral dos americanos?

PS – Exacto. Eles à partida têm um sistema universitário que lhes permite vencer isso mas, na prática, não é isso o que acontece. Eles têm um alto nível de insucesso escolar, têm muitas solicitações. Grande partes deles tem uma esquema de vida muito diferente do nosso. A maioria sai de casa aos dezassete/dezoito anos para ir para uma universidade. Só isso faz com que haja ali um corte. Em Portugal, as distâncias são pequenas e facilmente se volta a casa ao fim de semana, mas eles mudam-se para distâncias a milhares de quilómetros num outro lado e isso  muitas vezes cria situações que os desviam da escola, ou pelo contrário... Ao contrário do que acontece aqui, qualquer bom aluno nos E.U.A. chega onde quer. Eles de uma forma geral são tão pouco aplicados, que se  há um que salta e que mostra resultados e interesse, é imediatamente puxado. É impossível lá, alguém ser de facto bom e ficar pelo caminho... e isso cá acontece todos os dias. Porque qualquer um que seja bom lá vai para as universidades, que o chamam, pagam-lhe as propinas, pagam-lhe a estadia, enfim, está tudo resolvido. Eles puxam realmente os alunos, as universidades disputam os alunos no sentido de irem buscar os bons e depois encarreiram-nos para onde lhes interessa. Lá há uma grande guerra entre as instituições universitárias e de investigação do estado, e as grandes empresas farmacêuticas, que andam  a roubar os corpos docentes às universidades, porque lhes pagam mais. Eles precisam de bons alunos e dão-lhes condições. Ainda a propósito da questão, de há pouco, sobre os portugueses, quando os portugueses chegam aos E.U.A. safam-se muito bem, porque nós cá, somos os «reis do desenrasca» e estamos habituados a trabalhar e a fazer tudo sem meios... não temos esse material, inventamos uma coisa parecida e fazemos.

– Qual a ligação entre o seu percurso biográfico e o seu percurso científico, nomeadamente?

PS – Quando fui para Biologia já estava bastante motivado para aquilo que esperava estudar em Biologia. Daquilo que eu estudei, o que me interessou acabou por ser só uma pequena parte.

– E devia-se a quê, essa motivação?

PS – Coisas que  acontecem! Quando era pequeno passava o tempo todo a olhar para bichinhos, a olhar para as coisas, a procurar debaixo das pedras... interessavam-me os peixinhos; fazia caça submarina com o meu pai, fazia mergulho. Portanto, antes de ir para a faculdade eu já sabia que aquilo que queria fazer era alguma coisa que tivesse que ver com a natureza e com os peixes. Antes de entrar para a faculdade eu já sabia mais sobre peixes do que a maioria dos alunos formados em Biologia. Por interesse próprio! Pessoalmente, sempre pensei mais em termos da carreira, não como aquilo que se pretende atingir como objectivos finais, mas como uma observação cuidadosa daquilo que é o  quotidiano de uma área escolhida. Portanto, muito menos do que «eu vou ser o grande cientista que faz isto, que vou conseguir não sei o quê, e depois tenho o doutoramento não sei quê, e que tenho o lugar cativo e fico catedrático na faculdade não sei quê...» Não, não! Preciso de pensar: o que é que eu faço hoje? Eu levanto-me e vou fazer o quê? O que é que eu faço amanhã? A rotina não. Rotina, mas que não seja rotina! Algo que me motive. Isto depende muito da maneira como olhamos as coisas. Porque a maior parte das pessoas que me vêem, por exemplo, passar os quinze dias na Amazónia como eu os passei, acham uma grande chatice, uma grande rotina... passar algumas seis ou sete horas por dia a desenhar bicharocos. Para mim, só seria rotina se eu estivesse a desenhar a mesma coisa que fosse desinteressante todos os quinze dias. Mas o que fui apanhando para desenhar, foi tudo diferente do princípio ao fim. Aquilo para mim é a negação da rotina. É o acordar de manhã e perguntar-me “o que é que eu vou estar à procura para poder desenhar?”, é mesmo o contrário. A maioria das pessoas se calhar pensam «eu vou ter uma profissão e vou conseguir ganhar tempo para ter um hobby». Não,  eu penso ao contrário. O que é que eu gostaria de fazer como hobby? Vou aproximar essa minha profissão desse hobby. E foi aquilo que eu fiz, de facto. Porque aquilo que eu fazia enquanto investigador, era como hobby que desenhava.

– E acertou logo à primeira com esse percurso?

PS – Logo, logo, não. Mas não demorou muito tempo: quatro anos! Pensei: «Que parvoíce! Estou para aqui agarrado a uma secretária o tempo todo, a lutar com burocracias da função pública para conseguir um carro para fazer as minhas saídas, para fazer colheitas e levar com formol no nariz todos os dias, a olhar para bichinhos mortos metidos em formol e medi-los um a um, a ler bibliografia para fazer dois ou três artigos por ano, para ter no meu currículo mais dois artigos publicados...” – aguentei quatro anos e disse: «Não, não é isto que eu quero fazer».

– E como é que tomou consciência daquilo que queria fazer?

PS – Havia uns espacinhos de tempo livre que eu arranjava para fazer uns desenhos aos meus colegas que precisavam deles para os artigos. Então comecei a pensar: «Espera lá! É disto que eu gosto. Gosto é de fazer os desenhos dos bichos. E se calhar dá para viver só disto»! Foi um tiro completamente no escuro. Não pensei em saídas profissionais, sobrevivência... Nada disso! Pensei numa coisa que dizem os americanos (por vezes, têm saídas fabulosas): do what you like, money will follow. Acabou! Eu vou acreditar nisto. Eu vou fazer aquilo de que eu gosto, porque certamente que faço melhor uma coisa de que gosto do que uma coisa de que não gosto! Depois só preciso de um pouco de faro para conseguir vender o que faço, de ganhar o mínimo para continuar a fazer aquilo de que gosto.

– O que, felizmente tem acontecido!

PS – Sim. Também colaboro com outras áreas. Mas muita gente não conseguiria viver como eu. Por vezes, faço alguns projectos que me satisfazem e fico com dois ou três meses  à vontade, à distância. E  há muita gente que não percebe isto; perguntam-me: «Como é que consegues? Com dois filhos?» Muita gente não consegue habituar-se à insegurança, mas eu simplesmente acredito que as coisas são possíveis, que os problemas são passageiros e que é preciso ter um mínimo de elasticidade. Se não faço um desenho para o Oceanário ou uns selos para os Correios, ou não sei que mais, vou poder fazer uma coisa qualquer... ou uma t-shirt, dar um curso, há-de encaixar de alguma maneira...

– Isso é muito o espírito do expedicionário, a aventura...

PS – É. Eu arranjo logo qualquer coisa, mas tendo muito gosto naquilo que estou a fazer. Portanto, voltávamos à questão de há bocadinho, a da formação universitária e dos estímulos exteriores. Penso que seguir a motivação é a primeira coisa. Nunca seguir potenciais benefícios, económicos ou sociais, porque aquilo que eu verifico é que muita gente chega lá, passado dez ou vinte anos, e entretanto o percurso foi um grande aborrecimento. Acredito muito mais numa estrada secundária do que numa auto-estrada. Na auto-estrada estamos a passar ali o tempo, até chegarmos ao objectivo, e a mim o que me interessa é  olhar pela janela a ver o caminho, e isso não pode ser na auto-estrada; tenho de ir devagarinho.

– O que diria a um jovem que estivesse no secundário para o motivar para a sua área?

PS – Eu já o fiz. Quando me atirei de cabeça para esta área não havia ninguém em Portugal. Portanto. a questão de ter saída, ou não, é completamente abstracta porque eu ia ser o primeiro. Vim criar escola e pus uma dúzia de pessoas a viver disso profissionalmente; houve pessoas que eu puxei. Tudo porque acreditei que, se fizesse uma coisa com gosto e com motivação, fá-la-ia melhor; se não tivesse lugar naquele mercado, acabaria por criar outro. É uma questão de tempo, de saber esperar e de saber atacar na altura certa. Agora, se eu quisesse levar alguém para esta área, penso que não levaria toda a gente. Teria de levar alguém que tivesse uns pré-requisitos.

– E quais seriam?

PS – Nunca faria um convite desse tipo tratando-se, por exemplo, de uma pessoa sem poder de observação, sem interesse pelo detalhe. Deus (exista ou não exista, conforme se acredite) está nos detalhes. Tenho algum sentimento de pena em relação à maior parte das pessoas que vive por aí, por me aperceber (penso eu!) de que tudo lhes passa ao lado. Olham para a floresta e não percebem que existem lá árvores, não percebem que existem lá folhas com formas diferentes e individuais cada uma delas, que tem uma cor, uma textura, um sabor, um cheiro, todas essas coisas. Há pessoas que estão naturalmente dispostas a sentir tudo isso, por todos os filtros como o olfacto, o tacto... à partida essas são as pessoas com...

– Queda artística?

PS – Não tanto. As pessoas com queda artística, também. Mas, curiosamente, são as pessoas  com queda científica. Por isso penso que é uma predisposição para estar atento ao mundo que nos rodeia mas depois com formas diferentes, nalguns sentidos complementares de reformular toda essa informação e fazer um novo output. O novo output que eu faço daquilo que vejo é sempre de um olho científico, em primeiro lugar, depois acompanhado sempre de uma sensibilidade artística. Acredito que, no conjunto, as duas coisas, me permitem reformular as coisas para oferecer às pessoas que não tinham reparado nelas, como quem diz: «Anda cá! Já reparaste aqui estes bichos?». E fico muito chocado quando mostro, por exemplo, um desenho e as pessoas olham e dizem: «Ai! Que horror, uma aranha!”. Claro que uma aranha pode ser uma coisa horripilante, eu até tenho medo de uma aranha... Por questões culturais as pessoas estão mais habituadas, a lidar com  uns animais do que com outros, mas há também uma pré-disposição para apreciar, seja pela vista, seja pelo conhecimento científico ou seja pelas duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, quem é que eu iria buscar? As pessoas que têm essa sensibilidade latente.

– Não estará essa sensibilidade latente em todos nós?

PS - Há pessoas que a têm e há também pessoas que são incapazes de se sentar mais do que dois minutos a olhar seja para o que for. Essa pessoa não tem potencial para trabalhar nesta área. Porque a primeira coisa é essa sensibilidade, é essa capacidade de observação. A curiosidade latente, constante; sempre com vontade de conhecer mais – que é o espírito científico.

– E isso devido à paciência do observador-nato?

PS – Sim. O espírito do ilustrador é aquele de quem desenha alguma coisa para a transmitir outra vez. Não chega muitas vezes, aquilo que se está a ver. É preciso ir ver outros desenhos, ver bibliografia, perguntar a especialistas... É preciso querer conhecer, querer ir mais fundo. Resumindo: é necessária essa capacidade especial de observar e de sentir o mundo natural no detalhe. Coisa que está naturalmente associada a uma grande dose de paciência.

– E essa capacidade de observação, também não se treina?

PS – Treina pois. O perfeccionismo é uma qualidade que também pode ser um defeito... Eu tenho essa qualidade, ou defeito, altamente desenvolvida e sei que me é negativo. Às vezes há coisas que não são tão importantes na vida do dia-a-dia e eu  continuo a ser perfeccionista.  Por exemplo, poderia varrer o quintal em vinte minutos, e às vezes até tenho pressa de sair, mas não consigo deixar  de voltar atrás onde ficaram duas palhinhas. É já uma espécie de deformação! Tem de ficar bem. Isso pode ser mau ou pode ser bom.

– E o perfeccionismo também é necessário na sua área?

PS – Sem dúvida! No campo da ilustração científica, em que o que se pretende é transmitir conhecimento científico. Ora o conhecimento científico só é válido se  for rigoroso, não pode ser mais ou menos. Ou uma pessoa desenvolve esse perfeccionismo ou se não vai desenvolver todo como profissional nesta área... nunca tentaria puxar alguém que não pudesse vir a ser perfeccionista! Nas centenas de alunos que tenho tido, muitos ficam naquela história de que «está mais ou menos». E o «mais ou menos» não ajuda! Tem de estar no ponto certo!

– São precisas grandes doses de paciência e de persistência, aliadas a uma forte vontade de trabalhar!

PS – Sim, mas com a particularidade de sermos nós próprios a marcar o nosso ritmo. Quando parti para os Estados Unidos, com vinte e oito anos, sabia que o que eu ia fazer podia não dar certo. A única certeza que eu tinha era que não queria voltar a ter um emprego com um horário das nove às cinco. Jamais! Acho uma ofensa marcarem-me horas para eu estar a trabalhar! Eu marco as minhas próprias horas. E, garanto-lhe, produzo muito quando me dá para trabalhar; há também alturas em que não me dá para trabalhar e estou a pensar ou estou sem fazer nada – que também faz falta à cabeça. Mas é o meu ritmo.

– Será esse o privilégio do cientista que faz Ciência pura? O poder «marcar o seu próprio ritmo»?

PS – O cientista que faz Ciência pura hoje em dia já não a faz, nunca, dissociado de uma instituição. Por isso é que eu fugi! Poderia ter entrado para universidade como docente, mas aquilo que eu pretendo ter é a visão e a actividade mais próxima possível do cientista, que deixou de estar na moda quando passámos ao séc. XX. Eu sou, do fundo do meu coração e do meu ser, um naturalista. É com isso que me identifico.

- Como definiria «naturalismo»?

PS –  Para mim, o naturalismo é tudo o que tem que ver com o ser natural. É tão simples quanto isso.

– E onde é que o Homem entra nesse «ser natural»?

PS – O Homem faz parte; mas o homem, além do traço natural, tem também a sua própria evolução. Como observador, mais do que o Homem, interessa-me esse «ser natural», o que estava (já antes do Homem) e que está em constante evolução. Para mim, a Natureza só tem sentido e interesse percebendo o que havia aqui há setenta e cinco milhões de anos, quando caiu o meteoro no Yucatan e deu cabo dos dinossauros, e o que havia há trezentos milhões de anos ou há um milhão de anos com os primeiros hominídeos e, ainda, o que aconteceu ao cro-magnon, e o que ainda vai acontecer...

- Considera, pois, que o estudo da Natureza não pode estar dissociado do tempo?

PS – Eu diria que é sobretudo necessário tomarmos consciência do tempo; porque todos nós pensamos vulgarmente em termos de duas ou três gerações; quando puxamos pela História, conseguimos chegar ao D. Afonso Henriques e não muito mais. Ora, isso é uma migalhinha no tempo. Precisamos ter um outro tipo de noção de tempo, de ver globalmente  e perceber de onde é que nós vimos, para onde é que nós vamos...

– Devemos, portanto, tomar consciência da nossa contingência?

PS – Sim, porque, afinal, como qualquer espécie viva, somos contingentes! Mesmo aqueles catálogos que nós temos com milhares de espécies… São espécies neste momento, mas que, dentro de não sei quantos milhões de anos, se extinguirão. Nós estamos aqui só de passagem...

– Embora tenhamos uma presença diferente.

PS – Nem sempre pela positiva! Estamos aqui há muito pouco tempo e é melhor que ganhemos a nossa modéstia. Temos feitos tantos disparates! Fomos os únicos que tivemos a infeliz capacidade de ter dado cabo de tudo isto.

– No seu trabalho, procura ter isso em conta, cruzando as várias áreas científicas?

PS – O «meu» naturalismo tem que ver com a História Natural, a Biologia, em particular, mas também com a Geologia – e tudo isto sempre associado à compreensão do tempo. O tempo é fundamental para desfazer a arrogância, para não ficarmos aqui a olhar para o nosso próprio umbigo a pensar «Isto é que é!», porque, na verdade, estamos todos de passagem, mas é uma arrogância muito típica.

– E o conceito de Natureza?

PS – Se calhar há mais do que uma perspectiva possível. Porque há quem não inclua o homem na Natureza. No meu caso, quando vou ter contacto da Natureza, quero que me deixem em paz. Quero é ouvir passarinhos e não ouvir gente a falar! Embora, pela outra perspectiva, a da História Natural, a Natureza inclua o Homem.

– Mas a sua perspectiva é a primeira?

PS  - Sim, porque considero que, dentro da Natureza, o Homem, como ser natural, é um elemento de distúrbio, auto-destrutivo – é obtuso ao ponto de não ver que, ao destruir a natureza, se vai destruir a si próprio.

– Isso tem a ver com o actual modelo bidireccional de Natureza?

PS – Eu acho que nisto nem é preciso chegar-se lá aos modelos matemáticos. É intuitivo.

– Mas parece que é sempre necessário recorrer a modelos para justificar a Natureza?!

PS – Sim. Isso são as tais escolas. Eu sempre me distanciei um bocadinho dessas escolas matemáticas, desses modelos matemáticos para entender fenómenos ecológicos, e muitas outras coisas. No estudo da Ecologia que se faz por aí, aplicam-se modelos matemáticos para entender como é que as coisas funcionam, e muita gente acaba por chegar às mesmas conclusões às quais os naturalistas já tinham chegado! Tinham observado durante vinte ou trinta anos de experiência no campo e já então percebiam como as coisas funcionavam!

– Então, qual é a utilidade da aplicação dos modelos matemáticos à Ecologia?

PS – Servem, no fundo, apenas para confirmar aquilo de que nós já suspeitávamos, mas não para chegarmos a conclusões novas! Às vezes, de facto, com a estatística conseguem-se perceber e entender coisas muito complexas acerca da Natureza. Portanto, acerca do que seja a Natureza, penso que a definição depende da forma de como ela é perspectivada. De facto, o Homem deveria fazer parte da natureza, mas não se esforça por isso; aliás, muito pelo contrário, procura dominá-la, pensando que com isso vai estar melhor.

– Crê que o homem pensa que vai resistir, com essa atitude, à extinção da espécie humana?

PS – O homem está parvo! Ainda não percebeu que não vai para a frente sem a Natureza! Ou aprende a fazer parte dela – mantendo o equilíbrio de uma forma harmoniosa, numa perspectiva muito mais Oriental do que Ocidental – ou está absolutamente condenado. Mas isso já seria uma outra conversa...

– Mas a nossa espécie também não tem sido assim tão mal sucedida! Pelo menos, até agora!

PS – Tenho sérias dúvidas em relação à sobrevivência da nossa espécie nos próximos tempos. Por um lado, o homem tem uma enorme capacidade de inovação, de se adaptar a novas situações; por outro, tem muita falta de visão; é como se houvesse dois ou três que sabem estar e os outros todos a estragar. Não há forma!

– Estamos quase a concluir. Há ainda duas coisas que pensamos ser muito importante perguntar. Como definiria o conceito de Ciência?

PS – Ciência?! Como satisfação de curiosidade. Tão simples quanto isso. Nós somos muito curiosos, não necessariamente para resolver os nossos próprios problemas. Antes de mais nada, há uma curiosidade natural. A Ciência é o desenvolvimento espontâneo dessa curiosidade em relação às coisas. É o tentar perceber: «Se eu puxar o rabo daquele bicho, o que é que acontece? Se eu levantar esta pedra, o que é que há?». Claro que se tiram lições daí. Deve pegar-se nessa informação e continuar a avançar em relação e a determinadas coisas – a Ciência é isso mesmo!

– Então a Ciência, no seu caso, considera-a como uma forma de auto-conhecimento? Através da observação do seu objecto de estudo, também faz uma introspecção?

PS – Sim. Estou constantemente a pôr-me à prova. Gradualmente consigo ir vendo e percebendo coisas que não percebia, ou fazendo o que não conseguia fazer. Estou, permanentemente, a tentar autosuperar-me;  independentemente das vocações, nas quais eu acredito pouco – acredito mais nas motivações.

– Como conclusão: qual o significado que a viagem tem para si? 

PS – Curtir!

  Curtir?

PS – Sim, tendo em conta que conhecer coisas diferentes, ver melhor através do desenho, fazer descobertas com as outras pessoas que estão a viajar comigo, tudo isso, no seu conjunto, é curtir – e refiro-me, em particular, a essa viagem que fiz à Amazónia.


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